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Dispêndio Brasileiro em C&T em 2010

2012/01/19

Saiu recentemente no site do MCT as estimativas para 2010 do dispêndio em ciência e tecnologia do Brasil para o ano de 2010. Eu olhei para esta estatística nos anos passados, quando publiquei este e este artigos. O primeiro foi uma reclamação contra a Nature, que parecia querer publicar um gráfico de aspecto mais belo do que realmente deveria ser, bem na véspera de uma eleição presidencial.

Os valores atuais não mostram nada desesperador, nenhuma crise como no período de 2001 a 2004. Há apenas uma desaceleração no valor investido, que vem decaindo desde um pico em 2007, mas que ainda supera o período anterior. Podemos observar também a grande subida no índice do dispêndio em relação ao PIB em 2009, que se deve na realidade ao fato de que o PIB cresceu muito pouco naquele ano, enquanto os investimentos não pararam.


Vamos então aos gráficos. O primeiro mostra em barras vermelhas o valor absoluto do dispêndio ano a ano — se não estou enganado, não são valores corrigidos pela inflação. Não é bom ver estes valores desta forma, porque é só uma curva crescente mais-ou-menos exponencial, não dá pra identificar direito nenhum tipo de inflexão na taxa de crescimento. Por isso plotei o segundo gráfico, abaixo, com as barras azuis. Estas barras são o crescimento do dispêndio com relação ao valor do ano anterior, para cada ano. Aqui sim podemos ver claramente que o crescimento flutuava em torno dos 12% a cada ano, depois teve uma aceleração abrupta em 2007 levando o crescimento para mais de 20%, mas agora está desacelerando, chegando a 18.4% em 2010.

Curva azul no primeiro gráfico mostra o índice do dispêndio em C&T com relação ao PIB de cada ano. 2009 foi um ano sem crescimento, com até levíssima recessão (devido à crise mundial, etc). Os investimntos em C&T, entretanto, não pararam de crescer, e por isso a curva tem uma inclinação bem grande em 2009. Em 2010 ela já retoma um ritmo que aparenta mais normalidade, olhando para os valores desde 2006. A taxa média de crescimento anual desde 2005 e 2006 é de 17.4% e 18,7%, respectivamente, a grande diferença se devendo ao desempenho de 2007. Já o aumento médio da fração de investimento em C&T tem sido de 7.8 a 9.2 pontos percentuais a cada ano. Se neste passo podemos alcançar os desejáveis 2% em 3 a 5 anos.

Tomara que leve menos ainda do que isso, e sem recessões no PIB!…

E de preferência com aumento nas bolsas de pós-graduação. É um tema que abordava muito aqui, mas já cansei, mas adivinha só: ainda não teve aumento desde 2008. São três anos e meio sem aumento e mais de 20% de inflação incidindo. No meio-tempo já aumentaram bastante o número de bolsistas, mas nada de reajuste. Seria bom ver esta estatística de dispêndio em C&T, que tem uma aparência satisfatória, se refletir na vida dos bolsistas.

E pra fechar, vai aqui como brinde um gráfico log-log dos valores absolutos do PIB e do dispêndio em C&T. Dá pra ver em 2009 como a curva fica quase horizontal devido à pouca variação do PIB, enquanto que o dispêndio continuou crescendo.

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Publicações acadêmicas do Brasil e do mundo em 2010

2011/10/05

Hora de dar uma atualizada na análise que faço aqui de um dos meus temas favoritos, desempenho do Brasil e de outros países do mundo em publicações acadêmicas. Você pode ler mais sobre o assunto em meus artigos anteriores, marcados com a etiqueta “Desempenho brasileiro em publicações científicas”.

Eu gosto de pegar meus dados no site SCIMagoJR, e saíram os dados de 2010 faz algum tempinho. Só hoje baixei tudo e fiz meu gráfico contendo mais um ponto em cada curva. Aí está…
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As garras do preconceito

2011/06/28

Comentário ao artigo O casulo invisível Por Lúcia Guimarães em 27/06/2011 na edição 648. Era pra tar lá no site do OI, mas aquela porcaria de campo de comentários dele nunca funciona direito…

A TED talk do Eli Pariser é boa. É um alerta importante. Mas tb é atemporal. Você sempre tem q desconfiar de suas fontes de informação. Quem pensa que o Google sempre pega todas informações que existem e coloca as “certas” por cima, está enganado. Isso é ingenuidade. Que bom que estamos aí abrindo os olhos das pessoas para isto. Eles devem colocar um aviso?… E os jornais devem avisar também que podem ser tendenciosos, até malignos?

Agora, cuidado pra não exagerar na reação à descoberta. Não é porque você aprendeu que o Google não é o Sr. Perfeito, apesar do lindo fundo branco imaculado de suas páginas, que devemos agora sair acusando o rapaz de censor malvado, mal-intencionado, que está aí tentando encobrir os crimes da BP e do Mubarak. Sim, porque é isso que está sendo insinuado.

Acho importante notar tb que vários dos “experimentos” do Eli envolvem na verdade o problema da atualidade dos resultados. Isso é algo conhecido e que tem sido combatido. Me parece ainda que ele, e aparentemente seus espectadores tem que estudar mais sobre como funcionam essas coisas. Recomendo a todos você gugarem sobre isso, e dar uma olhada na Wikipedia! Saiam de seus casulos invisíveis em que escolheram viver.

Agora, a conversa aí de “garras do algoritmo” etc, isso sim e uma escancarada misoneidade, com pitadas daquele sentimento religioso de que algoritmos “que não pensam” podem nos causar mal com sua amoralidade, etc. Que só jornalistas e editores humanos e bomzinhos são dignos de confiança, e que se tem máquinas no meio estamos ameaçados… Olha, tem muita GENTE por trás do Google et alii. Gente fazendo as páginas, e bolando os algoritmos, e super preocupadas em criar os melhores resultados possíveis. Esse cara ficar posando de protestante outsider underground, que estaria falando coisas embaraçosas, desbaratando segredos que as empresas supostamente quereriam manter segredo, é uma tremenda injustiça.

A Internet ligou todo mundo sim. Mas não vamos OBRIGAR todo mundo a falar com todo mundo. Isso é o velho “zen-fascismo” já denunciado pelo bom Jello Biafra…

A verdade é que no seu timeline pode aparecer notícias tanto do esquilo morto no quintal do seu amigo, quanto de gente morrendo na África. Gente morrenod no quintal do seu amigo na África, talvez. A coisa é muito maior que isso, tem espaço pra zedenas de notícias ali. Tou vendo muita retórica e pouca substância nessa conversa toda.

Vê se cresce, gente.

Nada de novo no front do sufoco

2011/06/06

Uma crítica que recebo com frequência em meu trabalho como pesquisador é de não ter muito “foco”, e pular muito de um tema para o outro, não persistir em um único tema… Eu lamento muito possuir um contra-exemplo a esta afirmação, que é um tema que pesquiso bastante já faz alguns anos. Porém não se trata de uma dedicação daquelas motivadas pela paixão, nem por disciplina. É uma dedicação mundana, inspirada senão pelo mais puro instinto de sobrevivência. O tema, é claro, não podia ser outro. É o meu salário, e o de outros milhares de colegas bolsistas de pós brasileiros. É o vergonhoso arrocho salarial sendo perpetrado pelo governo Federal em suas bolsas de pós-graduação.

Hoje é dia de festa! Uma celebração macabra, quase um ritual satânico. É o aniversário de três anos desde o último reajuste das bolsas. Momento propício para tentar levantar o ânimo outra vez e botar aqui mais um artigo sobre o assunto, esperando chamar mais atenção da sociedade sobre o tema. Vou publicar de novo meu velho gráfico, em minha engenherice desavergonhada, e citar algumas notícias novas relevantes.

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