Nada de novo no front do sufoco

Uma crítica que recebo com frequência em meu trabalho como pesquisador é de não ter muito “foco”, e pular muito de um tema para o outro, não persistir em um único tema… Eu lamento muito possuir um contra-exemplo a esta afirmação, que é um tema que pesquiso bastante já faz alguns anos. Porém não se trata de uma dedicação daquelas motivadas pela paixão, nem por disciplina. É uma dedicação mundana, inspirada senão pelo mais puro instinto de sobrevivência. O tema, é claro, não podia ser outro. É o meu salário, e o de outros milhares de colegas bolsistas de pós brasileiros. É o vergonhoso arrocho salarial sendo perpetrado pelo governo Federal em suas bolsas de pós-graduação.

Hoje é dia de festa! Uma celebração macabra, quase um ritual satânico. É o aniversário de três anos desde o último reajuste das bolsas. Momento propício para tentar levantar o ânimo outra vez e botar aqui mais um artigo sobre o assunto, esperando chamar mais atenção da sociedade sobre o tema. Vou publicar de novo meu velho gráfico, em minha engenherice desavergonhada, e citar algumas notícias novas relevantes.

AULA DE MELANCOLIA
Vamos às curvas de sempre, aí vão:

Como bom professor, faço mais uma tentativa de explicar do que se trata ao interessados ainda não iluminados. Vamos falar primeiro só do gráfico de cima. Lá vemos o valor recebido a cada mês por uma pessoa que recebe cada um dos salários estudados. A curva vermelha representa um valor de quatro salários mínimos por mês. O salário mínimo vem tendo aumentos anuais há muitos anos (até mais que anuais). Cada aumento é um degrau na curva. A curva verde é o valor do pagamento mensal de um bolsista da Fapesp com bolsa “DR 1”. Esta bolsa teve um aumento recente, representado na curva pelo degrau perto da linha vertical tracejada, que indica o dia de hoje (início de Junho). Já a curva azul representa o valor da bolsa de doutorado do CNPq, que também é o valor seguido pela Capes. O maior espaçamento entre os degraus das curvas das bolsas mostra como elas passam por grandes períodos sem reajuste.

A partir de 1995 as bolsas entraram em um grande período de congelamento (anunciado explicitamente pelo governo, e com o objetivo de promover mudanças profundas em variáveis como idade dos alunos, etc), que terminou apenas com os aumentos apresentados no gráfico. O primeiro das federais em 2004, seguido por outro em 2006 e por fim um aumento bastante significativo em Junho de 2008, de 30%. A Fapesp demorou um pouco pra sair do congelamento, mas recentemente começou a demonstrar uma competência maior que a do Governo Federal em dar aumentos mais frequentes.

Estes valores no primeiro gráfico são os valores absolutos dos salários, mas não servem como indicação de “quanto ganha” o trabalhador. Isto basicamente por causa da inflação, fenômeno bem conhecido dos brasileiros, que causa aumento dos preços e consequente diminuição do poder de compra de uma quantia constante de dinheiro. Assim, apesar de salários permanecerem iguais ao longo do tempo, na prática você está sempre tendo uma pequena redução de seu salário. Por mais então que salários sempre só aumentem, estamos sempre lutando contra uma redução que precisa ser compensada de tempos em tempos na negociação de seu salário com seu empregador.

As curvas coloridas e tracejadas lá no gráfico indicam, para todo o período, o valor efetivo, corrigido pela inflação, correspondente a um valor de um dado mês tomado como referência. No caso do salário mínimo, a referência é Janeiro de 2011 quando houve o último aumento. Podemos ver que a curva do valor efetivo “bate” na do valor pago de Janeiro de 2010, indicando que em 2011 o aumento foi apenas o suficiente para cobrir a inflação de 2010. Em todos outros aumentos anteriores, porém, houveram aumentos acima da inflação, o que se denomina “aumento real”. Isto porque, é sempre bom lembrar, reajuste pela inflação não é um verdadeiro “aumento”, mas apenas uma justa correção do valor numérico do pagamento realizado para que você continue efetivamente ganhando o mesmo que há algum tempo atrás. Se não há reajuste, você está efetivamente sendo rebaixado, sofrendo uma redução de seu salário, i.e. ludibriado.

Voltando ao gráfico, na curva verde da Fapesp a referência também é o mês do último aumento ocorrido nela. Nesta curva podemos observar aquele fenômeno repetido quatro vezes. Cada novo degrau da curva verde desde Janeiro de 2003 “bate” na curva superior tracejada, indicando um novo reajuste pela inflação. Quer dizer que o salário está sendo reajustado para o mesmo valor efetivo de Janeiro de 2003, ou o “mesmo patamar” de Janeiro de 2003.

Na curva azul, do CNPq, podemos ver que o valor efetivo do salário de hoje é o mesmo de Outubro de 2002, e são também aproximadamente os valores alcançados após os aumentos de 2004 e 2006, quando os degraus “batem” na curva tracejada igual acontece nas outras. Agora, o bizarro, o inaceitável, o descalabro, é ver que acontece a partir de 2008. O governo deu um belo aumento em 2008, de 30%, que foi bem acima da inflação. Por isso o degrau não só “bateu” na curva tracejada, ele arrebentou. Mas de lá pra cá a tartaruga inflacionária começou a recuperar o atraso, e se encontrou de novo com a curva sólida.

O gráfico de baixo na figura mostra o tal valor efetivo ao longo do tempo, normalizado pelo valor atual da bolsa de doutorado do CNPq. Neste gráfico, se um salário recebe reajustes pela inflação com frequencia, a curva ganha o aspecto de uma sequencia de “barbatanas”, uma subida bem inclinada quando há o aumento, seguido por uma reta decrescente, até que há um novo aumento levando a curva para o mesmo valor efetivo. Isto é o que observamos na curva verde da Fapesp a partir de 2006. No caso do salário mínimo as duas últimas “barbatanas” estão alinhadas, mas de 2010 para trás observamos é um aumento real no valor efetivo do salário, ou seja, a curva é crescente se olharmos em larga escala, apesar de ser decrescente nos períodos entre os aumentos devido à inflação.

A curva do CNPq aqui neste contexto, é uma aberração, uma esquizofrenia. Olhando de 2002 até 2008 parecia que havia uma tendência a seguir um certo patamar constante, apesar da grande amplitude de variação. Mas aí veio o aumentão de 2008. Uma vitória… Mas e agora? Estamos há tanto tempo sem reajuste que já voltamos à faixa de valores antiga. Ao invés de seguirmos um novo patamar, o que estamos vendo é só um aumento na amplitude de variação, enquanto na média está ficando tudo igual. E isto é péssimo, porque significa que o efeito da inflação vai sendo percebido com mais força pelo assalariado. Vai ficando cada vez mais difícil pagar a comida, aluguel, ônibus… O salário do mês vai acabando cada vez mais cedo.

Quando um empregador mantém um salário sem reajuste por muito tempo, ele está promovendo uma política de arrocho salarial. Isso foi a causa primeira de inúmeras manifestações e greves já observadas na história, ainda hoje. Entre estas greves podemos citar praticamente todas greves de funcionários e professores de universidades. Há casos de reivindicação de aumentos para cobrir perdas salariais “históricas” de 20%, 30%… Mas geralmente a negociação fica sempre próxima de valores como 5%, 8%, raramente 10%, referentes a perdas inflacionárias de um ano, no máximo 2. As perdas históricas geralmente tem a ver com reajustes abaixo da inflação, e ainda com reajustes heterogêneos entre diferentes categorias. Congelamento de salário de toda uma classe de trabalhadores por três anos é um evento bastante raro. Ainda mais em toda uma classe relativamente grande de mais de 60.000 pessoas, como é o caso dos bolsistas de mestrado e doutorado da Capes e CNPq.

Esta curva azul naquele gráfico é um retrato de desorganização, de falta de estratégia, de má-gestão, talvez até hipocrisia. Aquela explosão em 2008 seguida por um tobogã de desvalorização, é uma corcunda maléfica, uma escoliose administrativa. Que mudança drástica houve na política do governo para a ciência de 2007 pra hoje para haver esse aumento vultoso, seguido depois por essa situação absurda?

ÉDIPOS E TIRADENTES
Vou concluir agora registrando aqui minha indignação, não só uma geral com a situação toda, mas também uma indignação específica com uma afirmação dada pelo novo presidente do CNPq Glaucius Oliva à Míriam Leitão em seu artigo Longe da Novidade, em trecho reproduzido abaixo.

(…) Um aluno de mestrado no país recebe R$ 1.200 de bolsa do CNPQ, pouco mais de dois salários-mínimos, enquanto o de doutorado ganha R$ 1.800. Glaucius Oliva, presidente do CNPQ, justifica o valor:

“Temos sempre que optar entre crescer o valor da bolsa ou aumentar o número de bolsistas. Em 10 anos, o número de bolsistas saiu de 14 mil para 70 mil.”

A autora e principalmente o presidente parecem ignorar aí a situação de três anos de arrocho em que nos encontramos. Já são 17,5% de inflação acumulada no período. DEZESSETE POR CENTO. Isso parece até valor das tais “perdas históricas”, mas não é isso não, é pura e simplesmente perda de um período enorme sem nenhum reajuste, sem nem sombra ou suspeita de poder haver reajuste. E o quase um-quinto já está chagando à fração que causou certa vez bastante indignação nesse país, principalmente lá nas Minas Gerais minha e da Miriam…

É claro que há em algum momento um comprometimento senhor presidente, uma escolha entre aumentar o número de bolsas ou aumentar o valor. Mas não é aceitável, não é admissível causar um arrocho salarial desta magnitude, por princípio. Reajustes periódicos pela inflação são inegociáveis. Se a atual estratégia do governo demanda tão fortemente sustentar mais e mais bolsistas, tanto que não dá pra dar este reajuste que é apenas justo, o que precisa ser feito é aumentar o orçamento! Não dá pra fazer arrocho pra cumprir uma certa meta de explosão populacional de bolsistas. Quer dizer que o dragão da inflação agora é um membro do governo, dando palpite em qual deve ser sua estratégia? Porque desta forma é ele quem está dizendo o número de quantos bolsistas haverão, e não quem determinou o orçamento, e nem quem determinou seu gasto.

Se o orçamento está apertado, e não dá pra manter o valor, então infelizmente vai ter que ter menos bolsistas. Ou isso, ou crie-se nova modalidade de bolsa de menor valor. Mas que não se recorra ao instrumento perverso do arrocho salarial. É lamentável ver uma figura tão importante da política científica nacional se fazer de tolo. Sim, porque é assim que se realiza o arrocho: se fazendo de tolo, de desentendido. “Hã? Que? Inflação? Que que é isso, é de comer?” Pelo contrário, é de dar fome…

Tolice na gestão da ciência é um paradoxo extremamente frustrante. Este abuso precisa ser denunciado. É uma mancada. O governo obviamente deu uma mancada ao prover aumento de 30%, e ficar agora se lamentando que o valor precisa ficar “agarrado” para elevar apenas o número e não a qualidade das bolsas. E que fique claro, estamos falando de _reajuste pela inflação_, e não de aumento real, que são poucos os que concordam que não precisa ser concedido. Era a recomendação feita lá no PNPG, Plano Nacional de Pós-Graduação de 2005-2010.

Não sei, infelizmente, o que recomenda o PNPG atual, porque este está parado nas gavetas da burocracia já fazem seis meses. Ninguém sabe, ninguém viu… Já já vai fazer aniversário também, outro ritual satânico. E assim a dissimulação e hipocrisia vão tomando conta da política científica nacional. Cada vez mais o governo se distancia da figura de um colega dos pesquisadores — e dos alunos de pós-graduação — se tornando menos um parceiro de trabalho e mais uma esfinge, um sistema inescrutável, um misterioso alvo de pesquisas ao invés de ferramenta.

Anúncios

4 Respostas to “Nada de novo no front do sufoco”

  1. Denis Massucatto Says:

    Oi Nicolau.

    Na próxima segunda haverá um seminário sobre a pós-graduação na POLI e contará com a presença do Carlos Brito Cruz e do Glaucius Oliva. É necessária a inscrição no site da poli: http://tinyurl.com/3jhjykv

    um abraço,

  2. daniel Says:

    Oi, sou bolsista de doutorado da Física UFMG. Essa política de desvalorização das bolsas tem ficado cada vez mais evidente. Com a permissão para termos algum vínculo empregatício o governo fala claramente: quer ganhar sua graninha? Vá trabalhar! E fica oficialmente instituído: bolsa não é salário. Não duvide que o valor da bolsa fique cada dia menor.

  3. Zidane05 Says:

    Ótimo tópico! Você usou Gnuplot nos gráficos?

    • nlw0 Says:

      Olá, Zidane. Obrigado.

      O gnuplot eu abandonei faz uns poucos anos. Desde então tenho usado só Python, com a biblioteca pylab que inclui o matplotlib pra fazer os gráficos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: