Arrocho das bolsas de pós – Abril de 2011

Voltamos ao recorrente tema deste blog, o arrocho salarial sendo praticado nas bolsas de pós-graduação das agências de financiamento do Governo Federal do Brasil. Você pode acessar meus artigos antigos sobre o tema através do rótulo Arrocho das bolsas de pós.

EDIT 19/04/2011: O artigo está incorreto! O aumento da FAPESP é a partir de Abril, portanto o primeiro pagamento reajustado será só em Maio. Mês que vem eu coloco o gráfico certo… Mas infelizmente não mudou a previsão de aumento pra CNPq e Capes: ninguém nem imagina.

Atualizei novamente aquele meu gráfico com a inflação de Março, e coloquei também a curva com o valor da bolsa de doutorado da Fapesp, que recebeu aumento em Abril.

Aí vai o gráfico, feito como os anteriores mas com algumas modificações.

No gráfico de cima estãos os valores absolutos ao longo do tempo. Cada aumento provoca um degrau nas curvas. As bolsas de pós da Capes e CNPq tiveram aumento no início de 2004, metade de 2006 e depois em 2008. As bolsas da Fapesp demoraram um pouco para receberem aumentos nesta década: houve um em 2006, 2008 e 2010, mas agora em 2011 houve um novo reajuste. Apesar de não haver aumento em 2004, esta agência está demonstrando a regularidade que está faltando à Capes e CNPq.

No mesmo período o salário mínimo recebeu aumento anualmente, até mais do que anualmente. E além disso o salário mínimo foi reiteradamente aumentado acima da inflação para ver isto basta olhas para a curva tracejada que acompanha cada curva. No caso da Fapesp desenhamos a curva partindo de Abril de 2011. Ela mostra o valor correspondente da bolsa neste mês (em que houve o reajuste) para os meses anteriores. Podemos ver que ela bate na curva do valor absoluto da bolsa nas outras vezes em que houve aumento, o que quer dizer que o valor está rigorosamente sendo reajustado pela inflação. Ou seja, um aluno recebendo esta bolsa recebe aproximadamente o mesmo valor “corrigido” que bolsistas recebiam desde 2003.

No caso do salário mínimo, a inclinação da curva que mostra o valor correspondente corrigido pela inflação está partindo de Janeiro, quando houve o aumento deste. A longo prazo a curva tem uma inclinação menor do que a do valor do salário, indicando que os aumentos foram acima da inflação. Apenas neste último período é que o aumento foi exatamente pela inflação, fazendo com que as curvas se toquem novamente em Janeiro de 2010. Este fato, aliás, foi bastante discutido nos jornais.

No caso da Capes e CNPq a curva tracejada parte também de Abril. Como podemos ver, o aumento de 2008 foi bem acima da inflação, e por isso a curva sólida corta a tracejada. Mas para trás disto as curvas tocam-se nos meses de aumento, como ocorre com e.g. a da Fapesp. Isto quer dizer que o valor da bolsa corrigido pela inflação é hoje o mesmo de quando houveram os aumentos de 2004 e 2006. A inflação portanto está “tirando o atraso”, e já recuperou o avanço que foi feito em 2008.

A partir deste ponto estamos vivendo no mesmo patamar em que as bolsas existiam para antes de 2008. Se ficássemos mais um ou dois anos sem aumento — e minha capacidade de duvidar disto está rapidamente enfraquecendo-se — poderíamos até atingir os patamares mais baixos dos princípios de 2008 e 2006. Seria então a prova cabal de que o aumento de 2008 foi pura fanfarronice. Para mim já é o que parece, na verdade, mas esta seria uma falha histórica.

O gráfico inferior de minha figura mostra os valores corrigidos pela inflação mês a mês. Cada período entre dois aumentos é um triângulo. Quando os aumentos são frequentes e aproximadamente pela taxa da inflação estes triângulos ficam com a mesma altura. Quanto menor a oscilação ali melhor. E uma inclinação positiva neste gráfico indica aumento acima da inflação. É o que ocorre no salário mínimo. No caso da Fapesp o valor está sendo satisfatoriamente corrigido pela inflação, tornando a curva aproximadamente reta nos últimos anos. Já no caso da Capes e CNPq o último aumento, seguido de um grande período de quase três anos sem reajuste, cria uma “barbatana” enorme no gráfico. Se o aumento tivesse sido apenas pela inflação em 2008, seguido de outro aumento hoje em dia, teríamos um período aproximadamente reto desde 2002. Seria um retrato de bolsas bem geridas, mesmo que pagando mal. Mas o aumento de 2008 foi acima da inflação, indicação de um desejo de pagar melhor os bolsistas. Só que esta iniciativa parece que perdeu força e o aumento histórico de 2008 parece agora cada vez mais uma aberração, um impulso isolado. Ao invés da curva passar a oscilar dentro de uma nova faixa, o que está havendo é um alargamento da faixa.

Uma faixa alargada, com grandes períodos sem reajustes, resulta na prática em um salário equivalente mais baixo. Se tivesse havido um aumento de uns R$200 em Junho de 2010, e um bolsista tivesse botado esse dinheiro extra embaixo do colchão, ele teria acumulado hoje R$2.200 reais. Contando um rendimento de 1% ao mês ele teria economizado hoje R$2.313, e com um rendimento de 10% ao mês (leia-se, pagando um cheque especial ou cartão de crédito que você não deveria ter utilizado) isso dá uma “economia” de R$3.700.

Por isso não deixe de assinar o abaixo-assinado da ANPG, em nome tanto dos reajustes quanto em protesto também pelos cortes sendo feitos no orçamento para ciência em geral.

EDIT 2011/04/12: Faltou incluir um dado importante. A inflação acumulada desde Junho de 2008 até hoje (Março de 2011) já é de 16,27%. Um aumento para compensar a inflação deveria levar a bolsa de doutorado hoje para quase R$2.100.

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