Estagnação na formação Brasileira persiste em 2009

No final do ano passado, na época das eleições, escrevi sobre uma estatística interessante: o número de concluintes do ensino superior brasileiro. No começo deste ano saiu o valor da estatística para o ano de 2009. Aqui vai portanto uma análise atualizada.

O site do Ministério da Educação veiculou uma matéria sobre o assunto, Em sete anos Brasil dobra o número de estudantes formados. O título e corpo são bastante positivos, mas ignoram completamente que esta forma de apresentar os dados é uma terrível aproximação de primeira ordem de uma curva que contém na verdade uma fortíssima inflexão, que é muito clara no gráfico a seguir.

Os tais sete anos são de 2002 a 2009, e diriam portanto o quanto o número de concluintes do ensino superior por ano teria crescido durante o período do governo Lula para que se possui dados. Neste período o crescimento atinge foi de 1.77 vezes, ou pouco mais de 77%. A primeira crítica ao artigo vai para esta canhesta aproximação de falar que o valor dobrou, quando na verdade não chegou a 90%, nem mesmo a 80% de crescimento. Estamos em 1984? 2+2 são 5 agora? Minha calculadora discorda veementemente.

Apesar da generosidade do autor do artigo, não vou negar que parece um crescimento bom. Mas se você estuda o resto da série vai ver que não é grandes coisas. Se pegarmos os valores de 1998 até 2005, uma outra janela de 7 anos, ao invés de 77% temos um crescimento de 138%! Interessante que 138 é bem aproximadamente 77 + 77%. Então se o mesmo repórter ruim de cálculo olhasse para estes números, precisaria dizer que a velocidade de crescimento caiu pela metade em 2009 comparado a 2005.

Ao invés de olhar para estas janelas é melhor olhar para o crescimento anual médio. De 1998 pra 2005 esse crescimento foi de 13% ao ano. De 2001 para 2005 a média foi de 16% ao ano. Já no período de 2002 a 2009 a média anual foi de apenas 8,5% ao ano. Mas a coisa fica pior do que isso, o crescimento médio anual de 2005 até 2009 foi de apenas 3,6%.

Repetindo: no período de 4 anos de 2005 a 2009 o crescimento médio anual no número de formandos foi de 3,6%. No período de quatro anos para trás, de 2001 a 2005, o crescimento foi de 16%, mais de quatro vezes maior.

O MEC está comemorando portanto um desempenho não só pior do que houve no passado próximo, mas ainda estão ocultando a situação atual em que está havendo um crescimento bem menor do que o valor noticiado sugere. Neste passo de 3,6% ao ano seriam 28% de crescimento em 7 anos. Nem com muita boa vontade ou más intenções acredito que alguém seria capaz de chamar isso de duplicação.

Isso tudo eu já havia comentado em Novembro passado, na verdade. O mais importante aqui é ressaltar que a tendência que já era clara então se manteve em 2009. E o mais importante, manteve-se a tendência de estagnação nas universidades públicas especificamente, que teve início já em 2004. Foram 202 mil formados naquele ano enquanto em 2009 foram apenas 188 mil, quase o mesmo valor de 2008.

Houve uma variação interessante entre as públicas, no entanto. Como podemos ver no gráfico, o valor de formados nas federais havia decrescido em 2008, mas em 2009 superou o valor de 2007. Porém nas estaduais o número ainda não superou o valor de 2005. Já as municipais ainda representam pouco, mas estavam tendo um crescimento bastante estável e em 2009 apresentaram uma queda súbita.

Resumindo, o Brasil _não_ dobrou o número de estudantes de 2002 a 2009. Neste período o crescimento foi só de 77%, e não 100%. E mesmo que tivesse dobrado, a taxa de crescimento até 2005 foi ainda maior do que isso (mais do que dobrou em 7 anos até 2005) e a taxa nos últimos poucos anos, desde 2005, é bem menor do que a taxa média desde 2002. Precisamos recuperar o crescimento. Só de voltar para uma taxa de dobrar a cada 7 anos já seria bom, porque a velocidade atual não é essa, e o valor de 2009 só demonstrou com mais certeza que estamos estagnados. Estamos crescendo o número de formados apenas a 3%, 4% ao ano. E isso só por causa das universidades particulares, não há crescimento nas públicas desde 2004. E não faltam notícias de escassez de mão-de-obra qualificada, e nem de crescimento no número de formados pelo ensino médio. Abram os olhos.

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