Atualizações sobre a desatualidade dos valores das bolsas de pós

Chegou aquela época do mês, época de pagamento, de publicação de estatísticas de inflação. Momento oportuno para refletirmos sobre a continuação do arrocho das bolsas de pós-graduação. Este artigo traz apenas alguns dados novos, e inclui um gráfico com valores não corrigidos das bolsas que pode ajudar a entender aquele outro gráfico com valores desvalorizados que eu sempre publico.

Sobre o arrocho

A inflação dos últimos meses foi bastante alta, e houve até elevação significativa nas previsões de inflação para 2010 e 2011. Uma outra notícia relevante nestes últimos meses foi a decisão do novo valor do salário mínimo, que ficou em R$540. Tudo bem que pode ser exagero a proposta de R$600 que andou rolando por aí, talvez um delírio causado por uma pancada encefálica, mas R$540 é pouco comparado com os aumentos ocorridos na última década, como podemos ver no nosso familiar gráfico a seguir.

O primeiro gráfico mostra em valores absolutos os valores da bolsa de doutorado do CNPq, e o valores de quatro salários mínimos (um salário hipotético para um recém-formado). A bolsa da CAPES segue a do CNPq, apenas em 2004 que houve um atraso no aumento, mas desde então são iguais. Já as bolsas de mestrado são tradicionalmente dois terços do valor das de doutorado. Cada vez que há um aumento nestes valores, aparece um “degrau” nas curvas. Nas bolsas houveram aumentos apenas em 2004, 2006 e 2008. Já o salário mínimo é reajustado pelo menos uma vez por ano.

Enquanto o salário das pessoas costuma passar muitos meses com o mesmo valor, a inflação faz com que essa quantidade recebia valha menos na prática conforme o tempo. O preço do feijão, por exemplo, vai subindo, e seu salário vai correspondendo a menos feijão no prato a cada mês. Aumentos periódicos pela inflação fazem com que o valor recebido pelo trabalhador mantenha-se em um nível justo. Quando um empregador passa muito tempo sem reajustar salários, ele está praticando um arrocho salarial, o que funciona na prática como na pratica como se ele estivesse reduzindo os salários dos trabalhadores para guardar para si o dinheiro economizado. Golpe clássico do capitalismo old-school, e luta clássica de movimentos sindicais com relação a política salarial (junto de planos de carreira, 13o, licença maternidade, etc).

As curvas tracejadas no primeiro gráfico mostram qual deveria ser o valor das curvas sólidas de mesma cor se estes salários recebessem aumentos todo mês. Este não é um cenário muito realista, mas as curvas mostram a região na qual a curvas sólidas deveria orbitar. No caso do salário mínimo houveram aumentos acima da inflação, o que faz com que a curva sólida adquira, a longo prazo, uma inclinação maior do que a tracejada. No caso das bolsas pós a situação é outra. Os aumentos desde 2002 foram apenas próximos da inflação em 2004 e 2006. O resultado é que a curva sólida fica baixo da tracejada, mas a toca nas ocasiões dos aumentos. Em 2008 a curva sólida ultrapassou a traceja, o aumetno foi bem acima da inflação. Porém a inflação já está “tirando o atraso”, e deve voltar a ficar acima da sólida de novo no começo de 2010 se não houver logo um novo aumento até Março de 2011.

O gráfico de baixo é o que eu sempre desenho. É como se eu “subtraísse” a curva tracejada das sólidas apra olhar a diferença. É de fato uma subtração se utilizarmos os logaritmos dos valores nas contas. Ela mostra bem como o salário mínimo teve crescimento real, acima da inflação, enquanto as bolsas mantiveram-se no mesmo patamar de 2002 até 2008, quando houve um aumento significativo. Porém já faz tanto tempo que houve o aumento de 2008 que estamos voltando ao velho patamar de 2002, o que deve acontecer no início de 2011. Neste segundo gráfico os valores são relativos ao valor atual das bolsas, que corresponde ao 100%. Note como a curva azul fica próxima da linha dos 100% em 2002, e nos dois “picos” dos aumentos de 2004 e 2006. Isto significa que o acúmulo dos aumentos (18%, 10% e 30% = 68.74%) está ficando próximo do valor da inflação acumulada desde 2002, que atualmente é de 67.05%.

Os valores das curvas de Dezembro de 2010 em frente consideram a previsão de aumento do salário mínimo, e uma inflação média de 0.42% ao mês. Consideram ainda a não ocorrência de aumento nas bolsas. Não foi noticiado nenhum aumento ainda, mas nós certamente esperamos que haja algum. A pergunta é quanto e quando.

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Uma conquista importante com relação às bolsas ocorrida recentemente foi a concessão de licença maternidade pela Capes. Esta é uma vitória importante, traz o status dos bolsistas para um pouco mais perto do século XX! Mas ainda falta um bocado… Entre outras coisas, um pouco mais de seriedade no planejamento das concessões de bolsas para que a qualidade seja mais estável. Isto significa reajustes mais periódicos nos valores. Independente das bolsas valerem aproximadamente 4, 3 ou 5 salários mínimos, é importante que estes valores sejam reajustados mais periodicamente.

Quando estudamos o problema dá vontade de saber: quanto valem as bolsas dentro dos orçamentos das agências? O quão diretamente uma crise que leve a um corte grande no orçamento do governo ou da ciência em geral pode causar um atraso nos reajustes necessários? Eu tenho procurado esses dados, e recentemente meu interesse ainda cresceu mais por causa do balanço apresentado na ABC na semana passada pela Capes e CNPq. Nesta notícia comemora-se o crescimento do orçamento da Capes, que foi mesmo significativo. É uma pena notar no entanto que o crescimento das bolsas não tem sido comparável.

Os dados do orçamento da Capes estão disponíveis no site deles. Aliás, queria aproveitar de novo para elogiar e agradecer a todos responsáveis nestas instituições por disponibilizarem estes dados publicamente. Tem um PDF lá de onde você pode tirar os valores de 2004 a 2009. Utilizei estes dados, além dos dados do valor das bolsas e quantidade (disponível no geocapes) para produzir os seguintes gráficos.

Esta é uma tentativa de melhorar um gráfico que já fiz antes. Ainda não está perfeito, mas está melhorando… O gráfico de cima mostra o número de bolsas de doutorado que foram oferecidas pela Capes em cada ano, relativo ao número em 2001. Estas são as barras vermelhas, as barras azuis mostram o quanto o valor cresceu em relação ao ano anterior. O gŕafico mostra como este crescimento se deu de forma irregular, com anos de grande crescimento seguidos de estagnação, senão até leve decrescimento. Os valores absolutos são 9.805 para 2001, e 17.873 para 2009. Estou muito curioso para saber se em 2010 o “soluço” foi curado.

No gráfico de baixo está representado uma estimativa de quanto foi gasto com bolsas de doutorado, dividido pelo valor do orçamento (que tirei lá do site). A estimativa foi simplesmente multiplicando o número de bolsas pelo valor das bolsas naquele ano e por 12 (meses no ano). Serve mais é pra mostrar que é bem significativo. Se você pegar as de mestrado também, vai ver que boa parte do orçamento da capes vai todo para bolsas de estudo. Apenas a partir de 2008 que há um decréscimo significativo, mas isso se deve a um dinheiro extra que começou a entrar na Capes destinado à Universidade Aberta do Brasil. Mais tarde eu vou fazer um gráfico melhor, com os valores em “x e y” como eu costumo fazer para deixar mais claro que avariação se deveu primariamente a isso.

Esse gráfico anterior ficou meio feio, mas esse último é mais bacana. Desenhei o número e valor das bolsas ao longo do tempo, tanto para o mestrado quanto doutorado, de 2001 a 2009. Deixa claro como há períodos em que fica tudo parado, períodos de aumento simultâneo e aparentemente proporcional, e períodos de aumento apenas no número de bolsas.

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4 Respostas to “Atualizações sobre a desatualidade dos valores das bolsas de pós”

  1. Marcelo Hermes Says:

    Oi, vc pode dar uma olhada neste post?

    http://cienciabrasil.blogspot.com/2010/12/o-pifio-desemprenho-do-brasil-nas.html

  2. Alan Godoy Says:

    Segue o link do abaixo-assinado da Associação Nacional de Pós-Graduandos pelo aumento das bolsas:

    http://www.peticaopublica.com.br/PeticaoVer.aspx?pi=anpg

  3. Marcelo Ferreira Says:

    Excelente artigo!
    Por outro lado, eu gostaria ver essa analise considerando os dados desde 1994; ou seja, desde a implementacao do plano real. Se nao me engano, o primeiro aumento das bolsas desde 1994 foi justamente em 2002 (ou 2004?), o que da uma desvalorizacao ainda maior para as bolsas de pos.

    • nlw0 Says:

      Olá, Marcelo. Obrigado pela visita!

      Não tenho certeza de como foi a história no começo dos anos 90, mas pelo que já li houve um aumento em 94, que teria sido junto de um aumento no salário dos professores universitários, e mais ou menos um ano depois (95) foi que houve o decreto do congelamento das bolsas. O fim do congelamento só se deu no começo de 2004, e ainda aconteceu do CNPq dar o aumento primeiro e a CAPES demorar um ou dois meses. Depois disso teve aumento em 2006 e 2008.

      A inflação desde 95/96 até 2004 dá uns 100%. Vai ser bem difícil recuperar aquele nível, nem tenho muitas esperanças… Mas um reajuste pela inflação dos últimos dois anos e meio, sendo que houve um aumento tão bom em 2008, me parece mais do que rasoável.

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