Foco no sufoco: notícias sobre o arrocho das bolsas de pós

Faz tempo que não volto a falar do assunto mais infame deste blog: o arrocho salarial sendo praticado nas bolsas de pós-graduação do Brasil. Este artigo traz algumas atualizações sobre o tema, encetado principalmente pela eleição presidencial cujo clímax ocorre agora em Outubro, além do anúncio do aumento do salário mínimo para o ano que vem.

O arrocho das bolsas de pós-graduação do Brasil é um dos temas principais deste meu blog. O motivo porque escrevo muito sobre isto é meio tendencioso. Eu recebo bolsa, e acho que nenhum tribunal do mundo me condenaria por dedicar especial atenção a isto, não é mesmo? Não vai ser a Tessália ou outro BBBlogueiro qualquer que vai falar desse assunto!

O nome do meu blog foi inventado pensando apenas nos temas mais nobres a que eu me dedico: lógica, matemática, ciência e tecnologia. Mas é interessante notar que esta abreviação que eu uso, “sufnec”, remete um pouco à ideia de arrocho salarial. Arrocho, pra quem não sabe, é um pedaço de pau que se pode utilizar para apertar alguma coisa, torcendo uma tira de pano ou corda. Arrocho salarial é uma política salarial em que os valores não acompanham a inflação satisfatoriamente, fazendo o trabalhador assalariado receber cada vez menos ao longo do tempo. Ao sofrer com o atraso dos reajustes, qualquer bom bolsista falante de inglês (como todo bom acadêmico) sente que os governantes “suffocate our necks”!

Bom, a situação atual é a seguinte. Com a inflação de Setembro ultrapassando os 0,5% (segundo o IPC da FIPE), a inflação acumulada desde o último reajuste nas bolsas ocorrido em Junho de 2008 já é hoje de 11,3%. Onze vírgula três por cento. Se você é um jovem e inocente pós-graduando que nunca recebeu um salário antes na vida, deixa que eu te digo: é bastante coisa. Ainda mais para alunos de mestrado que ganham R$1.200. Apesar de nunca ser o único motivo, a maioria das greves que ocorrem por aí geralmente envolvem pedido de reajuste por valores de 4% ou 6%. É muito raro qualquer classe de trabalhadores chegar ao ponto de estar com o salário defasado em 10%.

Em meu último artigo estava decepcionado por não ter ouvido notícia de aumento durante a reunião da SBPC. A decepção hoje é outra, já teve eleições, e nada de aumento. Ainda há chance de anunciarem antes do segundo turno, seria lindo. Mas já ouvi falar que não há mesmo esperanças mais de aumento este ano… Acho que já é hora então de começar a falar sobre o dano do arrocho supondo um aumento só daqui ia uns 6 meses.

Apesar do silêncio na reunião da SBPC e nas campanhas eleitorais, ao menos uma entidade manifestou-se com relação às bolsas. A ANPG, apesar de ainda lutar pelo onírico projeto de lei dos pós-graduandos anunciado com destaque em seu site, lançou uma campanha por mais e melhores bolsas. A campanha envolve ainda temas importantes que eu nem abordo aqui como licença maternidade. É uma pena que a impressão que dá ler o site deles é que isso é só uma coisa que alguém empolgado conseguiu emplacar na pauta deles, porque não pude achar nenhuma outra menção no site deles à questão.

Em que pé ficam então as bolsas no final deste ano? O gráfico abaixo, similar a todos outros que já publiquei aqui nesta série de artigos, mostra o valor da bolsa de doutorado corrigido pela inflação. A linha de 100% se refere ao patamar do início de 2004. Em quatro anos houveram um reajuste de 18% e outro de 10%, mas com a inflação de 21,5% o resultado foi um aumento real de apenas cerca de 6,8%.

O aumento de 2008 chegou atrasado mas foi bastante substancial: 30% de aumento. Mas o “espetáculo do crescimento” foi um show que ficou em cartaz apenas poucos tempo para os bolsistas de pós-graduação. A inflação desde o dia do aumento até hoje já acumulou 11,3%, e 35,3% desde Março de 2004. Assim o aumento real foi de apenas 24,7% em quase 7 anos. Chutando uma inflação de 0,25% ao mês, se não houver aumento até Março do ano que esse aumento real terá sido de apenas 22,9%. Isso porque o (PNPG 2005-2010) sugeriu em 2005 aumento real de 50%.

Este valor de 50% de aumento real em 5 anos não era pouco, era pra ser um aumento bastante grande mesmo. Se lhe parecer absurdo, o olhe para o PIB e o salário mínimo. O PIB do Brasil cresceu aproximadamente 26% de 2004 até 2009. Com as mais otimistas previsões para 2010 este valor pode chegar a 34%. Ou seja, tem espaço para um bom aumento de 10% nas bolsas para acompanhar este índice.

O salário mínimo teve um aumento real significativo nos último anos. Para o ano que vem já foi anunciado um valor de R$535,91. Assim enquanto as bolsas teriam tido aumento de apenas 22,9%, o mínimo terá crescido 65%. Isso sem inflação. É quase três vezes o aumento ocorrido nas bolsas, e vamos lembrar que foram aumento anuais, enquanto nas bolsas tivemos apenas três aumentos, sendo que só o de 2008 é que foi realmente responsável pelo crescimento real.

Por outro lado vejamos os professores. O salários dos professores das universidades federais, também conhecido como funcionários da carreira do “magistério superior” é um assunto complicado. O cálculo envolve vários fatores, e uma tabela gigante de referência que você encontra no site do Ministério do Planejamento. O valor final depende de um tal RT que varia como seu nível, e ainda gratificações devido a formação, e uma outra gratificação que foi criada como golpe para não dar aumento aos aposentados. Você encontra mais sobre o assunto no site desta associação de docentes e outros.

Neste mês houve um aumento para os professores no meio do ano, que já havia sido combinado há bastante tempo. Mas o aumento foi no adicional de titulação, e não no RT. Você pode observar isto no meu gráfico, em que a curva verde-claro mostra um aumento enquanto a verde-escuro não.
Além do aumento recente, chama a atenção nestas curvas como que um professor ganha bem mais do que um aluno de pós-graduação. Porém o aumento real deles em nossa previsão ficaria de 22,8% e apenas uns 16% para o professor assistente nível I com mestrado. Isto para essas duas classes, é difícil dizer o quadro geral. Seria justo então dizer que o salário dos professores talvez não tenha recebido também a sua parte do crescimento econômico do país nos últimos anos.

Vou concluir lembrando uma conta que já fiz aqui outro dia. Primeiro, o que é evidente no gráfico: o patamar do valor das bolsas está alcançando o que era no começo de 2002. E de hoje até o início de 1996 a inflação acumulada é de uns 120% a 150% (chutando baseado em vários índices). Quer dizer que precisaríamos de um aumento de mais uns 30% a 50% pra voltar àquele patamar. Recuperar o nível de 1995 já é inimaginável, porque a inflação acumulada só naquele ano é de mais de 20% (fim dos tempos da hiperinflação).

Eu não acharia ruim se de repente meu salário subisse para R$2.700, claro. Me contento com um pouco menos. Mas acho importante lembrar esses números porque muitos governistas falam do congelamento dos anos 90 como se fosse obra do capeta, mas quanto mais uma pessoa considerar que o valor naquela época era razoável, mais significa que é péssima a política salarial do governo para os pós-graduandos, porque se é justo voltar até aquele valor, e não dar apenas os 50% ali do PNPG, então não estamos nem perto do meio do caminho!

Se você se interessar pelo assunto, já dediquei vários artigos aqui ia respeito do valor das bolsas de pós graduação, marcados com a etiqueta Arrocho nas bolsas de pós. O primeiro foi Pelo aumento imediato nas bolsas de pós-graduação.

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