Comparando salários da pós-graduação com professores

É muito comum ouvir falar durante discussões a respeito do valor das bolsas de pós-graduação do governo federal, concedidas pela Capes e CNPq, a respeito do projeto de lei 2315/2003 do deputado Jorge Bittar do Rio de Janeiro. A proposta é atrelar o valor das bolsas ao salário de professores, como era por alguns anos até aproximadamente 1995. Você pode ler a respeito do projeto de lei no site da Câmara: PL-2315/2003 .

A proposta, para o doutorado, é tornar o valor 80% do valor do salário de professores assistentes nível 1 com mestrado. Explicando: existem hoje 5 classes de professor (i.e. Docentes na carreira denominada “Magistério Superior”): auxiliar, assistente, adjunto, associado, titular. Dentro de cada classe (exceto titular) existem níveis de 1 a 4, e ainda existe uma diferença no salário de acordo com a titulação, o chamado RT. Professor assistente só recebe RT adicional até o nível de mestrado.

O valor é calculado pelo vencimento básico, RT, e mais ainda uma porção de diferentes gratificações. Você pode procurar os valores neste site muito bom do Ministério do Planejamento: Tabela de remuneração dos servidores públicos federais. Só é meio chato olhar todas publicações pra descobrir quando ocorreram aumentos… Mas fiz isto, e o artigo é justamente pra mostrar agora uma comparação com os valores das bolsas, jogando tudo num gráfico parecido com o que eu fiz no artigo Pelo aumento imediato nas bolsas de pós-graduação. Aproveitei também pra atualizar o valor da inflação de Fevereiro, que foi bem maior que os generosos 0,25% que eu chutei. Deu mais de 0,7% (pelo IPC da FIPE).

Aí vai o gráfico:

Inflation corrected stipend values of brazilian grad students

Para compreender melhor o gráfico, visite meu artigo anterior. O valor “100%” refere-se ao valor da bolsa logo antes do aumento de 2004, de R$1072,89. Os outros valores são calculados considerando-se o valor em cada ano corrigido pela inflação acumulada até aquele mês de referência. Os picos nas curvas ocorrem quando há aumento, e os decaimentos subsequentes são a inflação “corroendo” o salário.

A primeira coisa que chama a atenção neste gráfico é como os salários dos professores são bem maiores, e ainda distanciaram-se bastante em 2004. Em 2008 as bolsas recuperaram um pouco a desvantagem, mas com o aumento programado aos professores no meio do ano, se não houver mesmo aumento este ano vamos ficar novamente defasados em relação aos professores.

Um outro interessante aspecto menos quantitativo e mais topológico das curvas é que apesar das intensidades diferentes, os aumentos dos professores e alunos ocorreram de forma praticamente simultânea desde 2004. Em geral pode-se dizer então que os professores tem amargado demoras entre reajustes muito similares às dos bolsistas, mas não nos esqueçamos que eles possuem salários bem mais altos.

O gráfico mostra duas curvas em verde referentes a salários de professores. A curva em verde claro é proporcional ao salário proposto no PL2315/2003, só que optei por mostrar apenas 40% do valor de referência ao invés de 80%, de tão grande que seria o aumento para 80%. A curva em verde escuro mostra 80% do valor do salário com as gratificações, mas sem nenhum RT.

Um anexo do documento da lei afirma que o valor das bolsas na época era já era de 70% do valor de referência, e portanto não muito distante dos 80% propostos. Este fato não é verdadeiro, e eis um dos motivos para a existência da curva em verde-escuro. Esta curva sim apresenta um valor mais próximo dos 142% (1/0.7) do valor das bolsas no fim de 2003, enquanto que considerando o RT dá bem mais. O valor com RT até cresce acima do básico nos anos seguintes, levando a curva para muito longe no gráfico, como dito acima.

Este grande aumento que houve em 2004 no valor de referência que a lei propôs em 2003 fez a proposta de aumento das bolsas tornar-se muito grande a seguir, o que sem dúvida contribui para a dificuldade na aprovação da lei. Mas isto só até o grande aumento de 2008, que trouxe as bolsas novamente para um nível mais próximo dos valores proporcionais aos salários dos professores, que não receberam um aumento tão grande em 2008.

Um fato importante com relação aos salários dos professores é que recentemente houve um aumento nos valores dos RTs que não foi acompanhado de aumento no valor básico. É por isto que a curva verde escura mostra uma desvalorização até o fim de 2010, enquanto que a verde clara mostra um aumento em Julho. Já em 2008 o que ocorre é que “por azar” os professores assistentes nível 1 com mestrado tiveram o RT reduzido o mesmo tanto que o valor básico aumentou. Portanto não houve aumento, só uma mudança nas parcelas para esta classe.

Outra comparação interessante de fazer é olhar para os valores de outras classes, e também para a situação em 1998. Hoje a bolsa vale R$1.800, e este valor é bem menor do que o menor salário de professor, de R$2.757,64 (professor auxiliar nível I sem RT). A bolsa vale 65% deste valor. Comparado ao salário do professor assistente sem RT a bolsa atual está a 59%. Um professor assistente com mestrado ganha R$4442.60, quase duas vezes e meia o valor das bolsas. Para alcançar o valor proposto lá no PL-2315/2003, de 80% este valor, teríamos que dobrar o valor da bolsa de doutorado.

Em 1998 o valor das bolsas era R$1072,89, e chegava ser maior do que o de professor auxiliar sem RT, que ganhava R$985,82. Só um auxiliar nível 3, ou nível 1 com especialização é que ultrapassavam o valor. Um assistente com mestrado ganhava R$1532,71, ou 43% a mais que um bolsista. Invertendo este valor temos que o valor da bolsa era naquela época 70% do valor desta classe hoje tão mais privilegiada. Vendo estes valores começa a ficar claro que a intenção do PL2315/2003 é voltar para a situação desta época, mas será que esta não  é uma idéia meio simplista?…

Voltando aos números, a inflação de 1998 até hoje (pelo IPC) é de aproximadamente 89%. Assim os professores assistentes com mestrado tiveram aumento real de uns 53% em seus salários de lá pra cá. Professores auxiliares sem RT tiveram aumento real de 49%. Bolsistas tiveram aumento de… vamos calcular… ah, sim: -11% É isto mesmo, enquanto o salário mínimo teve um significativo ganho real de lá pra cá, e enquanto o salário de professores de todos níveis também tiveram consideráveis ganhos reais, o valor atual das bolsas, mesmo com os aumentos concedidos nos últimos 8 anos, ainda está 11% abaixo do patamar de 1998.

Por mais que se tenha visto alguma necessidade de reduzir um pouco o valor das bolsas lá em 1995 comparado a outros salários, será que a discrepância não tornou-se grande demais? Será que os aumentos desde 2004 não poderiam ter sido um pouco maiores?…

O PL2315/2003 é interessante, mas tem uma porção de imperfeições. Não acho que ele deveria mais ser perseguido. Em primeiro lugar porque a diferença entre as bolsas e os salários dos professores mudou muito. Segundo que o número de bolsistas é grande demais, é um valor que “pesa” muito no orçamento, e deixá-lo atrelado a uma determinada classe da grande e variada escala de salários de professores é pouco prático.

A aprovação desta lei serviria mais como um empecilho no gerenciamento dos salários dos professores do que para fazer justiça aos alunos. Fossem poucos os bolsistas, tudo bem, garantiríamos que não ficariam “esquecidos” com relação a outros assalariados quando ocorressem reajustes, e este reajuste indireto não seria algo muito relevante no orçamento completo. Mas não é o caso, o número de bolsistas é muito grande, somos uma parcela significativa do orçamento. O que precisamos é de uma política salarial própria e bem feita. Precisamos é de mais consideração, precisamos que nossos salários sejam pensados como referência para reajustar outros salários de categorias menos numerosas, e não sermos nós os rebocados.

Agora, se precisa mesmo de alguma lei para fazer com que os políticos se importem conosco, prefiro que vinculem o valor das bolsas ao salário mínimo. O valor baixo das bolsas: 1800 para os doutorandos e 1200 para a maioria de mestrandos, tem mais a ver com salários de outros trabalhadores que são vinculados ao mínimo, do que ao de professores que ganham mais de R$3000. O número de professores em universidade federais no Brasil é aproximadamente igual ao número de bolsistas (60.000), atrelar as bolsas aos salários deles é como fazer surgir uma nova classe de professores específica dobrando o volume atual, e se isto ocorresse com professores esta classe sem dúvida iria começar a sofrer reajustes específicos. É ingenuidade achar que os salários das bolsas seria facilemnte reajustado sem maiores considerações cada vez que os professores recebessem aumentos.

Parece fazer sentido comparar alunos da pós graduação a professores, mas isso tem mais a ver nossas opiniões sobre o que essas pessoas fazem, do que com a verdadeira posição destas profissões no panorama geral de empregos do Brasil. Quantos bolsistas de doutorado se tornam professores de universidade federal, associados nível 1 com mestrado pouco tempo depois de terminarem a pós-graduação? Esta é mesmo uma ocupação significativa? E como estão recebendo pessoas que optaram por alternativas à pós-graduação? Seria desejável era olhar para ofertas de emprego para recém-formados de diferentes áreas, e variar o valor das bolsas conforme estes salários alternativos, e não de acordo com um salário bem mais distante da realidade do bolsista.

O projeto de lei é bem-intencionado, mas não acho que seja a melhor solução. Qualquer outra vinculação também soa interessante a princípio (e.g. com o salário mínimo) mas penso que existem vantagens administrativas em manter as bolsas independentes. O que a gente precisa mesmo é que os administradores responsáveis se importem mais conosco, que revejam com mais frequencia o valor, que façam planejamentos mais sólidos e de mais longo prazo. Parafraseando o excelentíssimo, nosso progresso está dependendo menos de leis impondo ordem e mais de amor, item essencial do lema positivista que foi omitido em nossa bandeira.

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6 Respostas to “Comparando salários da pós-graduação com professores”

  1. Daniel Says:

    Pois é, e ainda têm professor, pesquisador, reclamando do nível dos alunos da pós-graduação. Que são ruins, etc. Que não entendem isso. Qual é o graduado, o engenheiro, o médico, que submete-se a ganhar entre 2 e 4 salários mínimos? A faxineira de casa ganha isso! Não pertenço ao Conselho Nacional de Pesquisa, mas deixo como conselho o aumento do VALOR das bolsas para números mais competitivos de mercado. Se um profissional graduado possui um salário médio de R$3.500,00, a bolsa de doutorado precisa ser próxima disso.

    Ex-bolsista de doutorado CNPQ

  2. Pelo aumento imediato nas bolsas de pós-graduação « Condições suficientes e necessárias Says:

    […] PS: Escrevi uma sequencia este artigo, Comparando salarios da pós graduacao com professores. […]

  3. Acompanhando o garrote « Condições suficientes e necessárias Says:

    […] do valor das bolsas de pós-graduação do governo federal ao longo do tempo. Da última vez comparei com os salários dos professores, e vimos que a tão falada proposta de lei do dep. Jorge Bittar para atrelar o valor das bolsas […]

  4. Ana Says:

    Incrivelmente, dois anos quase desde a publicação deste artigo, o valor da bolsa de doutorado da Capes continua R$ 1800,00.

    Ou seja, aqueles -11% de ganho real já devem estar em cerca de -15% ou mais, tendo em vista que a inflação de 2011 ficou acima da de 2010.

    E a bolsa de doutorado sanduíche: USD 1300 há 3 anos… ok ok, a Capes “generosamente” ainda paga USD 200 extra por mês para seguro saúde e auxílio instalação… ou seja USD 1500, “just above US minimum wage”…

    E publicidade e mais publicidade para o programa Ciências sem Fronteiras… aumentou-se o número de bolsas, xxx bolsas de doutorado, xxx de doutorado sanduíche e xxx de pós-doutorado…

    Quem consegue viver dignamente e participar da vida acadêmica de qualquer universidade americana ou européia com tão pífio valor? Por motivo de comparação, grande parte das universidades americanas solicita comprovação de pelo menos USD 2000 / mês para a emissão do visto J1… USD 2000 é muito? Definitivamente não, é o suficiente para uma vida digna, porém sem luxos de um estudante de pós-graduação: casa segura, comida saudável, transporte adequado e livros.

    Portanto, acho que a midia precisa acordar e mostrar à sociedade o que é este tal Ciências sem Fronteiras tão aclamado por nosso governo.

    Se temos bons alunos de pós-graduação no Brasil? Alguns poucos… uma boa parte mal sabe escrever um texto, quem dirá um artigo científico, em inglês então, não preciso nem falar.

    Estando aqui em uma universidade americana de ponta ao lado de tantos excelentes alunos de graduação, me envergonho de um dia ter o mesmo título de doutor de muitos de meus colegas brasileiros…

    De uma ex-bolsista de Mestrado da Fapesp e atual bolsista de doutorado sanduíche Capes.

    • nlw0 Says:

      Olá, Ana. Obrigado pela participação!

      Já estamos há 3 anos e meio sem aumento, e a inflação já passou de 20%. Portanto é fato, a parcela acima da inflação do aumento concedido em 2008 já foi comida. Estamos em um patamar equivalente ao atingido após os aumentos de 2004 e 2006 — ou já _abaixo_ do atingido naquelas ocasiões. Ultrapassamos este limite aproximadamente em Junho do ano passado, quando publiquei o último artigo sobre o assunto aqui no blog.

      Fiquei feliz de você falar sobre o valor das bolsas nos EUA, porque venho procurando dados a este respeito, e tenho tido certa dificuldade. Pelo que constatei, a bolsa que existe nos EUA que poderia ser mais ou menos comparada às do Governo Federal seria a da NSF. Esta bolsa porém atende apenas um número pequeno de estudantes, uns poucos milhares, e ela também teria um valor relativamente baixo, de $1.000 dólares, e jamais foi reajustada em muitos anos. Isso é fato? E as bolsas concedidas pelo NIH e DOE, que suspeito que atendem muito mais alunos, elas pagam essa mesma quantia, ou pagam mais?

      Outra questão importante é a da fração de alunos que possuem bolsa, que no Brasil acho que permanece nos 1/3, apesar de ser algo em que o governo estaria investido, em detrimento do valor. Será que a fração é muito diferente aí?… Seria ótimo se você pudesse procurar pra gente algumas destas informações! 🙂

  5. Rodrigo de Freitas Amorim Says:

    Diante desta discussão sobre bolsas que o Governo oferece para os programas, quero salientar a situação caótica das bolsas para o Sistema Universidade Aberta do Brasil. Sou tutor presencial de estágio curricular supervisionado da UAB, no curso de Administração Pública, do Programa PNAP (Programa Nacional de Formação em Administração Pública) e recebo uma bolsa de auxílio no valor de R$ 765,00. Este valor está assim desde 2010, sem reajuste anual ou aumento. A bolsa corresponde a tutoria num exercício de 20h/a semanais e, também, se aplica aos tutores de pós-graduação lato sensu.
    Este valor é pífio e desumano com profissionais da educação que atuam como tutor na modalidade EaD. Além disso, é uma declaração de menosprezo a EaD.
    Onde vamos parar?

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